
Com origem ligada às antigas corporações musicais responsáveis pelo serviço das celebrações religiosas de São João del-Rei, a Orquestra Ribeiro Bastos tem sua criação oficialmente atribuída a 1790 e integra, ao lado da Orquestra Lira Sanjoanense, uma das mais antigas tradições musicais em atividade contínua das Américas. Sua trajetória, contudo, remonta a um período anterior: o chamado “Partido de Música” da Ordem Terceira de São Francisco já aparece documentado em 1755, reunindo músicos para as cerimônias religiosas. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, diferentes mestres estiveram à frente dessa atividade, até que, em 1860, o maestro Martiniano Ribeiro Bastos assumiu sua direção, dando à corporação o nome pelo qual é conhecida. Em meio às transformações econômicas e sociais que levaram ao desaparecimento de muitas formações musicais mineiras, sua continuidade tornou-se parte fundamental da identidade cultural de São João del-Rei.
A música praticada pela corporação sempre esteve profundamente ligada à vida religiosa da cidade. Seus músicos participam de missas, novenas, procissões e ofícios ao longo do calendário litúrgico, preservando compromissos históricos com irmandades e ordens religiosas. Na Semana Santa, período especialmente expressivo dessa tradição, a orquestra mantém em execução um amplo repertório que inclui Paixões, Ofícios de Trevas, Vias-Sacras e músicas para procissões. Formada majoritariamente por músicos amadores, cujos integrantes conciliam diferentes profissões com ensaios e apresentações, a Ribeiro Bastos é mais do que uma formação musical: é uma presença integrada à vida cultural e religiosa de São João del-Rei. Sua permanência também se deve à transmissão de formas particulares de interpretar esse repertório, preservando não apenas partituras, mas conhecimentos construídos ao longo das gerações.
Sua história revela ainda o papel das corporações musicais na formação de músicos e na construção de trajetórias profissionais. Martiniano Ribeiro Bastos (1834–1912), além de maestro e compositor, dedicou-se ao ensino e transformou sua própria casa em espaço de formação musical. Entre os músicos que passaram por esse ambiente estão os irmãos Presciliano José e Firmino Silva. Presciliano, músico e compositor negro, recebeu em 1879 uma bolsa concedida pelo imperador para estudar na Real Escola de Milão, na Itália, e posteriormente atuou como professor de música em diferentes cidades brasileiras. Também esteve ligado a essa formação o compositor e músico João Francisco da Matta, autor de obras como o Hino à Liberdade e o Hino à República. Essas trajetórias ajudam a compreender como as corporações musicais de São João del-Rei também foram espaços de aprendizado, reconhecimento e mobilidade profissional.
Hoje, a Orquestra Ribeiro Bastos permanece dedicada à guarda, à prática e à transmissão da música sacra, mantendo em circulação repertórios de diferentes períodos e preservando fontes fundamentais para a compreensão da história musical de Minas Gerais. Seu percurso se confunde com a própria história cultural de São João del-Rei: uma tradição que atravessou séculos e transformações sem deixar de cumprir a função que lhe deu origem. Ao lado da Lira Sanjoanense e em diálogo histórico com outras corporações das Vertentes, a Ribeiro Bastos representa uma continuidade rara — não apenas por conservar músicas de outros tempos, mas por manter viva a prática, o conhecimento e a comunidade que dão sentido a esse patrimônio.
